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Escrita por Madre Maria Teresa de Jesus Eucarístico. |
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Maria da Conceição Portugal e Sousa – nasceu em 23 de Outubro de 1889. Foi a
mais velha de seis irmãs e mais moça de um irmão. |
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Desde pequenina, o seu natural manso e bom, a sua índole dócil e humilde
valeu-lhe o apelido de “Santinha” que tão bem definiu a sua vida. Era meiga,
tímida exteriormente, mas de vontade enérgica e tenaz, e de uma grande retidão
de consciência e de caráter. Terminados os estudos em escola pública primária,
cursou mais tarde a Escola Normal de Campinas, onde se diplomou. |
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Terminados os estudos, conseguiu uma cadeira em escola isolada de Ribeirão
Preto, onde esteve alguns anos, trabalhando com afinco como professora. Foi aí
que a foi colher a moléstia pulmonar que, nos planos da Providência, devia ser o
caminho que iria conduzi-la à realização do seu destino. Adoeceu gravemente e
teve de deixar o magistério, vindo para a casa dos pais, então residentes em
Campinas. Daí transferiu-se para o Sanatório Vicentina Aranha, em São José dos
Campos, onde esteve alguns meses à espera do lugar que lhe havíamos prometido no
nosso pequeno Pensionato Maria Imaculada. Foi então que a conheci. Era nessa
época a moça piedosa e boa, profundamente cristã, cumpridora dos seus deveres.
Faltava-lhe, porém, ainda, a chama do amor divino que apoderando-se de uma vida,
a transfigura e eleva para os píncaros da perfeição. Boa e piedosa por natureza
e por educação, ela não estava todavia isenta de certas pequenas fraquezas e
imperfeições. Tinha, por exemplo, o seu quê de vaidade. E a natureza lutava
contra a graça. Custava-lhe desprender-se de certas bagatelas. Lembro-me um dia
em que ela chegou-se a mim, tristonha, com ar desanimado, e como eu indagasse o
porquê, ela me disse: “Tenho tanto desejo de ser santa, mas acho que não serei
nunca capaz. Eu não tenho coragem para certas coisas. Por exemplo: acho que
nunca serei capaz de sair com o rosto limpo, sem pós de arroz. Sei que é
vaidade, que não é perfeito, mas está acima das minhas forças!” Não pude deixar
de sorrir, ante a ingenuidade do “insuperável obstáculo” e disse-lhe: “Não se
preocupe com isto. Isto é o acessório e não o essencial da perfeição. Vá usando
o seu indispensável pós de arroz, mas aplique-se em conhecer e amar cada vez
mais a Jesus. Chegará o dia em que você nem se lembrará mais de que tem cara!”
Ela animou-se e prometeu seguir o meu conselho. Via-a de fato tornar-se cada vez
mais piedosa. Lia muito, comungava tanto quanto podia. Seu exterior
insensivelmente se ia também modificando, qualquer coisa de mais cândido e
simples a revestia, as ondas do cabelo já não eram ajeitadas e o precioso pó de
arroz só aparecia ainda em intervalos cada vez mais longos, até desaparecer
completamente. Até que um dia, estando eu no meu quarto, ela veio ajoelhar-se
junto a mim em um daquelas atitudes de abandono e de meiguice que lhe eram
familiares, e me disse com os olhos brilhantes de felicidade: “Madre, a senhora
tinha razão, eu já não me lembro mais de que tenho cara.” O que ela não me
disse, mas que eu lia em sua alma, é que o amor divino dela se apoderara e que
de ora em diante ela estava no caminho que ia percorrer a passos de gigante. Foi
o início de uma nova vida. Sua saúde havia se restabelecido, e embora o médico
achasse que a permanência no clima para consolidação de cura, ainda era
necessária, já não necessitava do repouso de doente. Ofereci-lhe, então ser
minha primeira auxiliar nos trabalhos do Pensionato. E começamos as duas aos
pouquinhos a nos irmanarmos nas práticas de piedade, no trabalho em comum... |
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A obra inicial estava feita. Santinha tornou-se meu braço direito. Ativa,
inteligente, dedicada e discreta, tornou-se em breve a auxiliar preciosa, a
amiga e confidente, a irmã de alma que me suavizou, durante tantos anos, os
embates da luta. Esteve comigo 7 anos. Logo seu feitio espiritual se desenhou
bem nítido: Uma humildade profunda, uma serenidade inalterável, o amor da vida
oculta, a paixão do sacrifício, e do sacrifício apostólico – pelas almas. Era
ela bem a violetinha escondida que irradiava, na sombra, perfume de virtude que
embalsamava deliciosamente a atmosfera em que vivia. Estar ao seu lado era um
prazer. Sabia obsequiar, agradar, sem se fazer notar, sem se fazer valer. A
todos dava sem contar os tesouros do seu coração. As sua ânsias de desapegar-se
de tudo e de todos para melhor voar a Jesus, nada lhe tiravam da natural
ternura. No trato com as meninas fazia-se respeitar, mas também fazia-se amar.
Era de uma firmeza doce e mansa, que cortava os abusos, mas não afastava e nem
inspirava temor. Conseguiu também vencer-se em outra fraqueza de temperamento.
Tinha natural aversão a certos misteres da enfermagem. Lutei a princípio para
acostumá-la e fazer com que dominasse os nervos. Conseguiu-o logo com sua força
de vontade fazer, sem desfalecimentos, os curativos mais impressionantes. |
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Tornou-se em breve tempo um modelo completo da vida religiosa. Era tão recatada
nela tudo respirava modéstia. Ninguém junto a ela ousava uma palavra imprudente
ou menos delicada. Sua obediência era heróica. Lembro-me de que uma vez, ao
passar junto a ela, notando-a um pouco curva no tórax, endireitei-lhe os ombros,
ou antes, procurei endireitá-la pondo-a em posição mais correta. Nesse dia não
atentei mais em sua atitude. No dia seguinte, reparo de súbito que ela tem
posição forçada, quase anormal. Julgando-a doente, indago a causa, e ela me diz
com ar de infinita doçura: “Madre, foi assim que a senhora me pôs ontem!”
Sofrera dor, a pobrezinha, para conservar uma posição que eu inadvertidamente
lhe dera na véspera. O menor desejo meu era uma ordem sagrada para ela. A
obediência à Regra, ao seu horário particular, aos avisos dos superiores, que
escrupulosa fidelidade! E a pobreza quanto a amava e a praticava! Tinha especial
devoção a São Francisco de Assis, o santo da pobreza e procurava imitá-lo.
Zelava com amor de tudo, e quere vê-la alegre, de uma alegria infantil ruidosa,
era dar para o seu uso algum objeto bem pobre e estragado. |
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Que dizer da sua humildade? Humilhava-a só para prová-la, a sós, em presença de
outrem e posso dar o testemunho diante de Deus, de que nunca a humilhação a
revoltou, antes sempre a encontrei dócil e submissa. “Perdão, Madre, Deus lhe
pague!”, era o seu estribilho. E no entanto as sua notas íntimas de retiro
mostram quão doloroso lhe era ser repreendida e que luta íntima ela teve de
travar para não perder a serenidade. |
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Assim fomos lutando juntas, trabalhando, vendendo as primeiras etapas do nosso
labor. Já se cuidava da construção do atual Sanatório e ela sempre ativa, sempre
generosa, dava-me legítimas esperanças de poder receber de minhas pobres mãos
inábeis o governo do Sanatório e da Comunidade nascente. Mas a Providência tinha
outros planos. Sua saúde abatera-se um pouco. No dia 11 de agosto, quando em
nossa capelinha se expunha o Ssmo Sacramento – era um sábado – fui por ela
chamada à cela. Manifestara-se uma congestão pulmonar. Chamei o médico. Em
breve, uma pneumonia bilateral sucedeu-se à congestão. Era demais para o seu
organismo resistir. Foram 21 dias de calvário. Sem uma queixa, sem nenhuma
impaciência, no meio dos horrores de sua falta de ar conservava o seu sorriso
doce, alegre, feliz. Foi entre lágrimas que lhe falei do céu. Preparou-se
angelicamente para a sua última confissão e unção dos enfermos. Com humildade
tocante pediu perdão à comunidade reunida. No final sorria para mim, como
querendo suavizar a minha mágoa e brincava com as irmãs que não podiam conter o
pranto. “Não chorem”, dizia ela. E num tonzinho gaiato: “Se vocês soubessem como
é bom!” E a uma medrosa disse rindo: “Eu virei dar-lhe um abraço frio para
tirar-lhe o medo de defunto.” Ela não deu o abraço, mas o fato é que a irmã
desde esse dia perdeu o medo. Em meio ao sofrimento, conservava a paz e a
alegria e perguntava-me freqüentemente: “Falta muito, Madre, falta-me muita para
ver a Jesus?” Quando as crises tornavam-se mais violentas, segurava-me as mãos e
dizia-me aflita: “Ajude-me, Madre, ajude-me a sofrer por amor!” E era bastante
segredar-lhe a palavrinha “vítima”, ou “é pelos sacerdotes”, para a serenidade
voltar e o sorriso aflorar-lhe nos lábios. |
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Dia 1º de setembro, era o 1º sábado do mês e o aniversário da minha 1ª Comunhão.
Sofrendo muito, ela me disse, dia 31 à noite: “Madre, amanhã é sua festa, amanhã
comungo pela senhora.” |
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Cedinho após a minha comunhão, acompanhei o Padre que foi levar-lhe o Santo
Viático. Recebeu-o com sua habitual piedade, mas já com dificuldades, pois
respiração era quase um estertor de agonia. Fiquei ao seu lado fazendo minha
ação de graças, que nesse dia se limitava a um Fiat doloroso, e no momento em
que eu me dirigi à Nossa Senhora, em uma súplica ardente, dizendo-lhe: Levai-a,
minha Mãe, mas levai-a vós mesma hoje que é o vosso dia”, fui surpreendida por
um estranho silêncio. Cessada por completo a respiração ruidosa de há pouco.
Alarmada, corri para junto dela, e encontrando-a soerguida no leito, face e
olhar iluminados, sorriso nos lábios a fixar um ponto do alto, e a se entregar a
efusões de gozo: “Que beleza! A Imaculada Conceição! Que beleza! Já estou no
céu! Pronto! Entrei! Sofri tão pouco, Jesus! Que beleza, a Imaculada Conceição!
Chamei por ela, mas não deu por mim.O olhar chamejante fixara-se em alguma
celeste visão. Ajoelhei cheia de respeito junto a ela e não ousava mais
chamá-la. Durou isso uns cinco minutos. Depois cessou o resplendor do rosto,
voltou ao normal, olhou-me com espanto e confusão e perguntou-me: “Falei alguma
coisa, Madre?” “Que é que você viu, minha filha?” respondi-lhe sorrindo. E ela,
confusa e humilde: “Parece que vi Nossa Senhora, mas... tenho tanto medo!”
Entendi seu medo. Eu sempre pregara a vida de fé pura, despida de tudo o que é
extraordinário, a via da infância, o caminho batido de Santa Teresinha. E ela,
filhinha fiel, tinha medo, nessa hora suprema, de ter saído do caminho da
obediência, da nossa regra que é toda simplicidade. Tranqüilizei-a e, para não
perturbá-la mais, fingi não dar importância ao caso, não obstante o ardente
desejo que tinha de saber mais alguma coisa. |
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À tarde entrou em agonia. Chamei o Revmo Viário e reuni a comunidade. Desde o
momento em que fitara a Virgem, seu olhar tornou-se diferente, a ponto de
impressionar os que ignoravam o ocorrido. “No céu, Madre, vou lhe mandar
Missionárias, Missionárias, que beleza! Quero trabalhar muito! Arranjar por toda
parte – Missionárias!” “Madre, ainda falta muito para ir ver Jesus?” “Santa
Teresinha está aqui, Madre, ela está aqui!” |
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Depois já não pôde mais falar. Ilumina-se-lhe mais e mais o semblante em radioso
sorriso, fita-me fixamente com olhar celeste, sorrindo sempre, vai-lhe fugindo a
vida, a respiração mais e mais se enfraquece. Faltam-lhe as forças, mas os
lábios fazem ainda um supremo esforço para beijar o Crucifixo. E docemente, sem
contrações, sem violência, desprendeu-se a alma angélica do corpo virginal e
voou para o Céu! |
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“Laetatus sum in his quae dicta sunt mihi; in domun Domini íbimus.” |
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Era a impressão de alegria suprema, que se tinha junto aos seus despojos. Uma
nuvenzinha dolorosa lhe velara o semblante no momento de expirar. Quando acabei
de vesti-la, com seu uniforme branco e azul, fiquei surpresa – um sorriso
celeste, indescritível, impressionante, belo, se lhe pousara nos lábios, dando à
sua fisionomia um encanto sobre humano. A cabeça pendera levemente para o lado.
Tinha a atitude da oferenda. Consumara o sacrifício. Circundei-a de flores. Nas
mãos coloquei-lhe um botão de rosa branco, frescamente colhido. No dia seguinte,
à hora do enterro, à tarde, quando, devido ao calor todas as flores já murchas
precisaram ser renovadas, o botão ainda estava nas mãos virginais, fresco, belo,
como se naquela hora colhido, com as gotinhas d’água a brilhar na sua corola.
Era um carinho de Esposo das Virgens, à sua esposinha virginal. Como aquele
botão puro e fresco, atravessar sua alma inocente as ardências do sol da vida e
penetrava imaculado, no jardim do Paraíso. |
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Santinha, Ir. Maria da Sagrada Face, nossa Irmãzinha querida, porta-bandeira
nossa no Céu, protege tuas irmãzinhas missionárias, ajuda-nos lá de cima a amar
a Jesus e a espalhar o amor sobre a terra! |
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Ouça a voz da Serva de Deus Madre Maria Teresa narrando os últimos
momentos da vida de Santinha. |
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