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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
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Madrinha da Pastoral Vocacional do IPMMI
Biografia
Escrita por Madre Maria Teresa de Jesus Eucarístico.
Maria da Conceição Portugal e Sousa – nasceu em 23 de Outubro de 1889. Foi a mais velha de seis irmãs e mais moça de um irmão.
Desde pequenina, o seu natural manso e bom, a sua índole dócil e humilde valeu-lhe o apelido de “Santinha” que tão bem definiu a sua vida. Era meiga, tímida exteriormente, mas de vontade enérgica e tenaz, e de uma grande retidão de consciência e de caráter. Terminados os estudos em escola pública primária, cursou mais tarde a Escola Normal de Campinas, onde se diplomou.
 
Terminados os estudos, conseguiu uma cadeira em escola isolada de Ribeirão Preto, onde esteve alguns anos, trabalhando com afinco como professora. Foi aí que a foi colher a moléstia pulmonar que, nos planos da Providência, devia ser o caminho que iria conduzi-la à realização do seu destino. Adoeceu gravemente e teve de deixar o magistério, vindo para a casa dos pais, então residentes em Campinas. Daí transferiu-se para o Sanatório Vicentina Aranha, em São José dos Campos, onde esteve alguns meses à espera do lugar que lhe havíamos prometido no nosso pequeno Pensionato Maria Imaculada. Foi então que a conheci. Era nessa época a moça piedosa e boa, profundamente cristã, cumpridora dos seus deveres. Faltava-lhe, porém, ainda, a chama do amor divino que apoderando-se de uma vida, a transfigura e eleva para os píncaros da perfeição. Boa e piedosa por natureza e por educação, ela não estava todavia isenta de certas pequenas fraquezas e imperfeições. Tinha, por exemplo, o seu quê de vaidade. E a natureza lutava contra a graça. Custava-lhe desprender-se de certas bagatelas. Lembro-me um dia em que ela chegou-se a mim, tristonha, com ar desanimado, e como eu indagasse o porquê, ela me disse: “Tenho tanto desejo de ser santa, mas acho que não serei nunca capaz. Eu não tenho coragem para certas coisas. Por exemplo: acho que nunca serei capaz de sair com o rosto limpo, sem pós de arroz. Sei que é vaidade, que não é perfeito, mas está acima das minhas forças!” Não pude deixar de sorrir, ante a ingenuidade do “insuperável obstáculo” e disse-lhe: “Não se preocupe com isto. Isto é o acessório e não o essencial da perfeição. Vá usando o seu indispensável pós de arroz, mas aplique-se em conhecer e amar cada vez mais a Jesus. Chegará o dia em que você nem se lembrará mais de que tem cara!” Ela animou-se e prometeu seguir o meu conselho. Via-a de fato tornar-se cada vez mais piedosa. Lia muito, comungava tanto quanto podia. Seu exterior insensivelmente se ia também modificando, qualquer coisa de mais cândido e simples a revestia, as ondas do cabelo já não eram ajeitadas e o precioso pó de arroz só aparecia ainda em intervalos cada vez mais longos, até desaparecer completamente. Até que um dia, estando eu no meu quarto, ela veio ajoelhar-se junto a mim em um daquelas atitudes de abandono e de meiguice que lhe eram familiares, e me disse com os olhos brilhantes de felicidade: “Madre, a senhora tinha razão, eu já não me lembro mais de que tenho cara.” O que ela não me disse, mas que eu lia em sua alma, é que o amor divino dela se apoderara e que de ora em diante ela estava no caminho que ia percorrer a passos de gigante. Foi o início de uma nova vida. Sua saúde havia se restabelecido, e embora o médico achasse que a permanência no clima para consolidação de cura, ainda era necessária, já não necessitava do repouso de doente. Ofereci-lhe, então ser minha primeira auxiliar nos trabalhos do Pensionato. E começamos as duas aos pouquinhos a nos irmanarmos nas práticas de piedade, no trabalho em comum...
 
A obra inicial estava feita. Santinha tornou-se meu braço direito. Ativa, inteligente, dedicada e discreta, tornou-se em breve a auxiliar preciosa, a amiga e confidente, a irmã de alma que me suavizou, durante tantos anos, os embates da luta. Esteve comigo 7 anos. Logo seu feitio espiritual se desenhou bem nítido: Uma humildade profunda, uma serenidade inalterável, o amor da vida oculta, a paixão do sacrifício, e do sacrifício apostólico – pelas almas. Era ela bem a violetinha escondida que irradiava, na sombra, perfume de virtude que embalsamava deliciosamente a atmosfera em que vivia. Estar ao seu lado era um prazer. Sabia obsequiar, agradar, sem se fazer notar, sem se fazer valer. A todos dava sem contar os tesouros do seu coração. As sua ânsias de desapegar-se de tudo e de todos para melhor voar a Jesus, nada lhe tiravam da natural ternura. No trato com as meninas fazia-se respeitar, mas também fazia-se amar. Era de uma firmeza doce e mansa, que cortava os abusos, mas não afastava e nem inspirava temor. Conseguiu também vencer-se em outra fraqueza de temperamento. Tinha natural aversão a certos misteres da enfermagem. Lutei a princípio para acostumá-la e fazer com que dominasse os nervos. Conseguiu-o logo com sua força de vontade fazer, sem desfalecimentos, os curativos mais impressionantes.
 
Tornou-se em breve tempo um modelo completo da vida religiosa. Era tão recatada nela tudo respirava modéstia. Ninguém junto a ela ousava uma palavra imprudente ou menos delicada. Sua obediência era heróica. Lembro-me de que uma vez, ao passar junto a ela, notando-a um pouco curva no tórax, endireitei-lhe os ombros, ou antes, procurei endireitá-la pondo-a em posição mais correta. Nesse dia não atentei mais em sua atitude. No dia seguinte, reparo de súbito que ela tem posição forçada, quase anormal. Julgando-a doente, indago a causa, e ela me diz com ar de infinita doçura: “Madre, foi assim que a senhora me pôs ontem!” Sofrera dor, a pobrezinha, para conservar uma posição que eu inadvertidamente lhe dera na véspera. O menor desejo meu era uma ordem sagrada para ela. A obediência à Regra, ao seu horário particular, aos avisos dos superiores, que escrupulosa fidelidade! E a pobreza quanto a amava e a praticava! Tinha especial devoção a São Francisco de Assis, o santo da pobreza e procurava imitá-lo. Zelava com amor de tudo, e quere vê-la alegre, de uma alegria infantil ruidosa, era dar para o seu uso algum objeto bem pobre e estragado.
 
Que dizer da sua humildade? Humilhava-a só para prová-la, a sós, em presença de outrem e posso dar o testemunho diante de Deus, de que nunca a humilhação a revoltou, antes sempre a encontrei dócil e submissa. “Perdão, Madre, Deus lhe pague!”, era o seu estribilho. E no entanto as sua notas íntimas de retiro mostram quão doloroso lhe era ser repreendida e que luta íntima ela teve de travar para não perder a serenidade.
 
Assim fomos lutando juntas, trabalhando, vendendo as primeiras etapas do nosso labor. Já se cuidava da construção do atual Sanatório e ela sempre ativa, sempre generosa, dava-me legítimas esperanças de poder receber de minhas pobres mãos inábeis o governo do Sanatório e da Comunidade nascente. Mas a Providência tinha outros planos. Sua saúde abatera-se um pouco. No dia 11 de agosto, quando em nossa capelinha se expunha o Ssmo Sacramento – era um sábado – fui por ela chamada à cela. Manifestara-se uma congestão pulmonar. Chamei o médico. Em breve, uma pneumonia bilateral sucedeu-se à congestão. Era demais para o seu organismo resistir. Foram 21 dias de calvário. Sem uma queixa, sem nenhuma impaciência, no meio dos horrores de sua falta de ar conservava o seu sorriso doce, alegre, feliz. Foi entre lágrimas que lhe falei do céu. Preparou-se angelicamente para a sua última confissão e unção dos enfermos. Com humildade tocante pediu perdão à comunidade reunida. No final sorria para mim, como querendo suavizar a minha mágoa e brincava com as irmãs que não podiam conter o pranto. “Não chorem”, dizia ela. E num tonzinho gaiato: “Se vocês soubessem como é bom!” E a uma medrosa disse rindo: “Eu virei dar-lhe um abraço frio para tirar-lhe o medo de defunto.” Ela não deu o abraço, mas o fato é que a irmã desde esse dia perdeu o medo. Em meio ao sofrimento, conservava a paz e a alegria e perguntava-me freqüentemente: “Falta muito, Madre, falta-me muita para ver a Jesus?” Quando as crises tornavam-se mais violentas, segurava-me as mãos e dizia-me aflita: “Ajude-me, Madre, ajude-me a sofrer por amor!” E era bastante segredar-lhe a palavrinha “vítima”, ou “é pelos sacerdotes”, para a serenidade voltar e o sorriso aflorar-lhe nos lábios.
 
Dia 1º de setembro, era o 1º sábado do mês e o aniversário da minha 1ª Comunhão. Sofrendo muito, ela me disse, dia 31 à noite: “Madre, amanhã é sua festa, amanhã comungo pela senhora.”
 
Cedinho após a minha comunhão, acompanhei o Padre que foi levar-lhe o Santo Viático. Recebeu-o com sua habitual piedade, mas já com dificuldades, pois respiração era quase um estertor de agonia. Fiquei ao seu lado fazendo minha ação de graças, que nesse dia se limitava a um Fiat doloroso, e no momento em que eu me dirigi à Nossa Senhora, em uma súplica ardente, dizendo-lhe: Levai-a, minha Mãe, mas levai-a vós mesma hoje que é o vosso dia”, fui surpreendida por um estranho silêncio. Cessada por completo a respiração ruidosa de há pouco. Alarmada, corri para junto dela, e encontrando-a soerguida no leito, face e olhar iluminados, sorriso nos lábios a fixar um ponto do alto, e a se entregar a efusões de gozo: “Que beleza! A Imaculada Conceição! Que beleza! Já estou no céu! Pronto! Entrei! Sofri tão pouco, Jesus! Que beleza, a Imaculada Conceição! Chamei por ela, mas não deu por mim.O olhar chamejante fixara-se em alguma celeste visão. Ajoelhei cheia de respeito junto a ela e não ousava mais chamá-la. Durou isso uns cinco minutos. Depois cessou o resplendor do rosto, voltou ao normal, olhou-me com espanto e confusão e perguntou-me: “Falei alguma coisa, Madre?” “Que é que você viu, minha filha?” respondi-lhe sorrindo. E ela, confusa e humilde: “Parece que vi Nossa Senhora, mas... tenho tanto medo!” Entendi seu medo. Eu sempre pregara a vida de fé pura, despida de tudo o que é extraordinário, a via da infância, o caminho batido de Santa Teresinha. E ela, filhinha fiel, tinha medo, nessa hora suprema, de ter saído do caminho da obediência, da nossa regra que é toda simplicidade. Tranqüilizei-a e, para não perturbá-la mais, fingi não dar importância ao caso, não obstante o ardente desejo que tinha de saber mais alguma coisa.
 
À tarde entrou em agonia. Chamei o Revmo Viário e reuni a comunidade. Desde o momento em que fitara a Virgem, seu olhar tornou-se diferente, a ponto de impressionar os que ignoravam o ocorrido. “No céu, Madre, vou lhe mandar Missionárias, Missionárias, que beleza! Quero trabalhar muito! Arranjar por toda parte – Missionárias!” “Madre, ainda falta muito para ir ver Jesus?” “Santa Teresinha está aqui, Madre, ela está aqui!”
 
Depois já não pôde mais falar. Ilumina-se-lhe mais e mais o semblante em radioso sorriso, fita-me fixamente com olhar celeste, sorrindo sempre, vai-lhe fugindo a vida, a respiração mais e mais se enfraquece. Faltam-lhe as forças, mas os lábios fazem ainda um supremo esforço para beijar o Crucifixo. E docemente, sem contrações, sem violência, desprendeu-se a alma angélica do corpo virginal e voou para o Céu!
 
“Laetatus sum in his quae dicta sunt mihi; in domun Domini íbimus.”
Era a impressão de alegria suprema, que se tinha junto aos seus despojos. Uma nuvenzinha dolorosa lhe velara o semblante no momento de expirar. Quando acabei de vesti-la, com seu uniforme branco e azul, fiquei surpresa – um sorriso celeste, indescritível, impressionante, belo, se lhe pousara nos lábios, dando à sua fisionomia um encanto sobre humano. A cabeça pendera levemente para o lado. Tinha a atitude da oferenda. Consumara o sacrifício. Circundei-a de flores. Nas mãos coloquei-lhe um botão de rosa branco, frescamente colhido. No dia seguinte, à hora do enterro, à tarde, quando, devido ao calor todas as flores já murchas precisaram ser renovadas, o botão ainda estava nas mãos virginais, fresco, belo, como se naquela hora colhido, com as gotinhas d’água a brilhar na sua corola. Era um carinho de Esposo das Virgens, à sua esposinha virginal. Como aquele botão puro e fresco, atravessar sua alma inocente as ardências do sol da vida e penetrava imaculado, no jardim do Paraíso.
 
Santinha, Ir. Maria da Sagrada Face, nossa Irmãzinha querida, porta-bandeira nossa no Céu, protege tuas irmãzinhas missionárias, ajuda-nos lá de cima a amar a Jesus e a espalhar o amor sobre a terra!
 
Ouça a voz da Serva de Deus Madre Maria Teresa narrando os últimos momentos da vida de Santinha.